“Deus sabe que sofremos!”

2010-09-15 12:46

Esta é uma revelação, talvez surpreendente e incómoda para alguns, que encontramos no texto bíblico e que encontra a sua expressão pessoal e suprema na pessoa de Jesus Cristo, como “homem de dores e que sabe o que é padecer”, segundo o livro profético de Isaías, no capítulo cinquenta e três.

O Deus da Bíblia que mostra o Seu rosto em Jesus Cristo não é indiferente ao nosso sofrimento, mas não é um mero espectador distante embora sensível às nossas dores. Ele mesmo provou o cálice do sofrimento até à última gota, tomando para Si um corpo humano e, rejeitando qualquer analgésico, veio para ser colocado numa cruz.

A resposta divina ao sofrimento humano não é teórica, filosófica, doutrinária, construída de palavras e frases amigáveis. Ele tomou sobre Si não apenas as dores humanas, mas a própria raiz desse sofrimento. A cruz de Jesus Cristo é a forma como Deus responde às inquietações humanas sobre o sofrimento. Trata-se de um sofrimento redentor que nos abre as portas da esperança e nos dá a garantia de um futuro em que toda a dor será banida para sempre.

A Bíblia revela-nos que nem sempre foi assim, mas também não será assim para sempre. Vai chegar o dia em que Deus colocará um ponto final no sofrimento de todos os que tomam sobre si a sua cruz e seguem a Jesus Cristo, o crucificado e ressurrecto. Enquanto tal não acontece, como seguidores de Jesus Cristo, estamos sujeitos ao sofrimento e à dor à semelhança dos outros seres humanos numas coisas e diferente deles em outras, mas sempre contando com o suporte e consolo do Espírito Santo.

Recentemente li um livro de memórias, como um diário, escrito por um pai durante o luto de um filho que faleceu com vinte e cinco anos. Vários foram os aspectos que prenderam a minha atenção e me tocaram profundamente a alma. Deixo aqui duas dessas pérolas que manifestam “a fé em meio ao sofrimento”: “Através das nossas lágrimas, vemos as lágrimas de Deus”. “’Põe tuas mãos em minhas feridas’, disse Jesus ressuscitado a Tomé, ‘e saberás quem eu sou’. Cristo não perdeu as suas feridas. Elas são a sua identidade, nos dizem quem Ele é. Elas desceram à sepultura com Ele e, com Ele, de lá saíram, visíveis, tangíveis, palpáveis. A ressurreição não as removeu. Aquele que desfez os laços da morte preservou suas feridas. (…) Se você quer saber quem eu sou, ponha a mão nesta chaga.” (WOLTERSTORFF, Nicholas; Lamento; Ultimato; pp. 80, 92, 93)

O título deste texto foi retirado de um outro autor evangélico contemporâneo, Philip Yancey, que muito tem escrito sobre esta matéria. De Deus nós recebemos muito mais do que um livro sobre o sofrimento. Recebemos o que não podíamos esperar e para muitos ainda hoje é incompreensível e inaceitável: o próprio Deus entre nós, pendurado numa cruz, vencendo o pecado e a morte, para que vivamos na Sua força esperando a bem-aventurança eterna em solidariedade com todos os que sofrem como comunidade de ajuda.

 

Samuel R. Pinheiro

Director de publicações
www.samuelpinheiro.com

 

Novas de Alegria, Fevereiro 2009